Circulação Extracorpórea
A Circulação Extracorpórea (CEC) é um suporte de vida artificial, com principal objetivo a reoxigenação do sangue, "passando por um percurso montado por profissionais da saúde em ambiente esterilizado durante uma cirurgia de peito aberto" (Conceição et al., 1978, conforme citado por Marco, 2022, p. 618). Esta é uma técnica amplamente utilizada em diversos procedimentos de cirurgia cardíaca, tendo como objetivos principais a criação de um campo cirúrgico limpo, a preservação das características funcionais cardíacas e a promoção de condições seguras para a atuação da equipa cirúrgica (Torrati et al, 2012). Contudo, a utilização da CEC produz uma resposta inflamatória sistémica com libertação de substâncias que comprometem os mecanismos de coagulação e a resposta imunológica; aumentam do tónus venoso, produzem grande libertação de catecolaminas, alteram o fluido sanguíneo e o equilíbrio eletrolítico. Tais alterações podem culminar em disfunção, lesão ou necrose celular miocárdica, bem como em uma disfunção pulmonar leve. A inflamação sistémica induz ainda um movimento de fluídos do espaço intravascular para o intersticial, motivado por alterações na permeabilidade vascular e pela redução da pressão oncótica plasmática, contribuindo assim para o aparecimento de complicações no período pós-operatório imediato (Torrati et al, 2012).
Funcionamento da CEC
O percurso consiste no desvio do sangue venoso através de uma cânula posicionada na veia cava, sendo levado até ao oxigenador que realiza as trocas gasosas, recebendo oxigénio e eliminando o gás carbónico. Esse sangue rico em oxigénio é deixado na artéria aorta, através de uma cânula, sendo então distribuído para todos os órgãos do corpo.
O perfusionista é o profissional e membro da equipa médica capacitado e treinado, responsável pela análise dos sinais vitais do doente, bem como garantir o funcionamento da máquina de CEC (Marco, 2022).
Complicações
"O uso da CEC em cirurgias cardíacas é comum e costuma ser usada para a maioria dos pacientes" (Torrati et al., 2012, p. 343). Sendo assim, a avaliação dos utentes no pós-operatório constitui uma componente essencial dos cuidados de enfermagem, particularmente nas primeiras 24 horas, período crítico para a identificação de alterações clínicas e prevenção de complicações. As competências e habilidades clínicas dos enfermeiros são fundamentais para a estabilização hemodinâmica, controlo da dor e prevenção de complicações.
Utentes submetidos a tempo mais prolongado de CEC apresentam mais déficits neurológicos, como sonolência excessiva e alteração da função cognitiva e intelectual. Importante referir que a incidência de disfunção cognitiva tem sido maior após cirurgias cardíacas do que quando submetidos a outros procedimentos cirúrgicos, além de ser ainda maior entre utentes idosos (Torrati et al., 2012).
Um estudo de Torrati et al. (2012), compara a frequência das complicações no pós-operatório imediato para 83 utentes, de acordo com o tempo de CEC, em que um grupo foi submetido a um tempo de ≤85 minutose outro >85 minutos. A diferença na frequência de complicações encontradas foi pequena entre os dois grupos, sendo as principais: a dor, o que pode ser explicado pela "extensão do trauma tecidual a que foi submetido" (p. 343); oligúria, sendo que o desenvolvimento de lesão renal aguda, caracterizada pela diminuição do volume de diurese e nível de creatinina aumentado, ocorreu nos que foram submetidos a um maior tempo de CEC; hiperglicemia; hipotensão arterial; hipertensão arterial. As complicações também passaram por: náuseas e vómitos; alterações neurosensoriais, caracterizadas por agitação, déficit cognitivo ou crises convulsivas; diminuição dos níveis de hemoglobina; febre; e algumas complicações como hemorragia, hemotórax e pneumotórax apareceram apenas no grupo com maior tempo de CEC. "A necessidade de reoperação precoce de um paciente no pós-operatório de cirurgias cardíacas não é incomum (...) e pode ocorrer por vários motivos como, por exemplo, trombose ou insuficiência do enxerto, que levam a um colapso hemodinâmico súbito (p. 344). Marco (2022) descreve ainda como complicações no pós-operatório a leucocitose, anemia, êmeses, plaquetopenia, choque cardiogénico e desorientação.
De acordo com Marco (2022), a CEC acarreta também riscos como as falhas elétricas, que poderão comprometer a sua utilização. No entanto, como prevenção deste tipo de falha, as máquinas de CEC utilizadas no Serviço de Cirurgia Cardiotorácica possuem umas horas de autonomia e, além disso, o profissional treinado também poderá iniciar a manutenção na máquina manualmente, através de manivelas. A montagem da máquina de CEC é da responsabilidade do perfusionista e é de extrema importância a sua correta realização para que não haja nenhum erro durante a cirurgia.
A compreensão do funcionamento e das potenciais complicações associadas à CEC é fundamental para a prática de enfermagem, sobretudo no contexto dos cuidados intensivos no pós-operatório de cirurgia cardíaca. O enfermeiro assume um papel central na monitorização rigorosa dos parâmetros hemodinâmicos, bem como na deteção precoce de alterações neurológicas, na gestão eficaz da dor e das alterações metabólicas. A vigilância contínua e a capacidade de intervenção rápida são determinantes para minimizar o impacto das complicações à CEC. Assim, a realização desta pesquisa permitiu-me desenvolver competências clínicas especializadas, essenciais para garantir a segurança e a qualidade dos cuidados prestados a estes utentes em contexto crítico.
Referências Bibliográficas
Torrati, F. G., & Dantas, R. A. S. (2012). Circulação extracorpórea e complicações no período pós- operatório imediato de cirurgias cardíacas. Acta Paulista de Enfermagem, 25, 340-345.
Marco, G. S. C. (2022). Circulação extracorpórea: acidentes e complicações. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, 8(9), 618-627.

